A armadilha da polarização na política Parte I – O mito dos moderados

Embora se identifique como moderado e centrista de modo genérico, o brasileiro adota posições extremistas ao responder sobre 17 questões específicas: aborto, desciminalização da maconha, casamento gay, pena de morte, cotas raciais, justiça dos impostos, manutenção do Bolsa Família, gastos do governo – e até a disputa entre taxistas e o Uber (os gráficos estão apresentados ao longo do post). Os entrevistados foram convidados a escolher entre a aprovação e desaprovação às 17 perguntas numa escala de 0 a 10. Embora a média ponderada das respostas transmita a impressão de moderação na população, em todas elas os entrevistados escolheram as duas respostas extremas (0 e 10) mais de 63% das vezes – um nível que chegou a 80% e ficou, na média, em 73%. As três respostas intermediárias, mais moderadas, foram escolhidas em média por 12,6%. A moderação do brasileiro não passa de uma quimera. Na hora de se posicionar para valer, ele se torna extremista.

Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (1/9)

Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (2/9)
Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (3/9)
Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (4/9)
Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (5/9)
Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (6/9)
Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (7/9)Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (8/9)

Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira (9/9)

 


Os estatísticos dispõem de uma ferramenta para avaliar quando duas variáveis estão associadas, conhecida como índice de correlação. Trata-se de um número, entre 0 e 1, que mede, grosso modo, o grau de interferência de uma na outra. No caso das ciências naturais ou exatas, é preciso um índice de correlação superior a 0,6 para que se possa afimar uma relação significativa entre duas grandezas. No caso das ciências humanas, basta uma correlação de 0,2 para isso.

Seria razoável, se vivêssemos numa sociedade dividida entre direita e esquerda, esperar que as respostas se aglutinassem em grupos correspondentes a esses dois lados do espectro ideológico. Mas não é o que acontece. Praticamente não há relação alguma entre elas. Testadas todas as correlações entre as perguntas da pesquisa, em apenas quatro casos ela foi superior ao patamar de 0,2 – e, no mais alto, chegou a apenas 0,25. O gráfico abaixo apresenta os resultados:

Gráfico da Pesquisa sobre polarização na política brasileira - correlações
Alguém pode ser favorável ao aborto (à esquerda) e contra os impostos (à direita). Pior: pode ser contra aos impostos (à direita) e contra a mudança na idade de aposentadoria (à esquerda). Pode ser a favor das cotas raciais (à esquerda) e a favor da extinção do Bolsa Família (à direita). Analisando todas as combinações de respostas, não se verificam as associações estatísticas esperadas caso a sociedade estivesse dividida em dois grupos ideologicamente consistentes. As únicas relações significativas, ainda assim fracas, são entre as posições a respeito do aborto e do casamento gay e de ambos com a religião; e entre a pena de morte e a legalização do porte de armas. As relações entre as demais respostas a quaisquer duas questões são insignificantes e, mesmo quando existem, são insuficientes para caracterizar dois lados ideologicamente definidos como direita e esquerda.

É, portanto, correto afirmar que as palavras “direita” e “esquerda” não fazem mais sentido prático no mundo de hoje. As posições de ambos os lados estão embaralhadas pela sociedade. Embora eles ainda tenham algum sentido filosófico, não são conceitos que possam ser cientificamente verificados na população. Mas isso não significa que o cidadão tenha migrado para o “centro moderado”, por mais que ele insista em afirmar isso. Ao contrário, ele adota posições mais extremas a respeito de questões específicas – do aborto ao Uber; do ajuste fiscal à pena de morte; das estatais à religião.

O mesmo fenômeno pode ser detectado em outros países. Nos Estados Unidos, um caso mais extremo, a polarização vem se acirrando há mais tempo. Um estudo definitivo que demoliu o o mito dos moderados por lá foi publicado em julho passdo pelos pesquisadores Douglas Ahler, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e David Broockman, da Universidade Stanford. Muitos eleitores americanos, afrima Broockman, dizem querer um sistema de saúde público, similiar ao britânico (posição de esquerda); são favoráveis à deportação dos imigrantes ilegais e a medidas draconianas contra gays e lésbicas (posição de direita). “Parecem moderados, mas são na verdade extremistas”, diz ele, segundo o site Vox

É verdade, portanto, como afirmou Giddens, que a queda do muro de Berlim pôs em xeque os conceitos de direita e esquerda. Mas não é verdade, como ele deduziu, que isso conduzirá necessariamente ao centro moderado. Ao contrário, é possível haver uma polarização ainda mais acirrada, em torno de diversas ideias, bandeiras e interesses que continuam a ser identificados à direita ou à esquerda. Os dois lados do espectro ideológico, apesar de não existirem de modo consistente na sociedade, ainda falam ao coração e despertam paixões. Os motivos para a persistência desses conceitos, para a identificação dos cidadãos com eles e o significado disso tudo para a polarização na política contemporânea serão o tema do próximo post desta série.

Posts da sére “A armadilha da polarização na política”

Parte I – O mito dos moderados

Parte II – Dois lados desiguais

Parte III – A derrota da razão

Parte IV – Dois sentidos para uma palavra

Parte V – Calma, lentidão e humor


Fonte: http://g1.globo.com/mundo/blog/helio-gurovitz/post/armadilha-da-polarizacao-na-politica-parte-i-o-mito-dos-moderados.html

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: