Campanha de 2022 ficará voltada novamente para o tema da corrupção

Com foco nas eleições de 2022, o presidente Jair Bolsonaro pretende reinvestir no pilar anticorrupção para atrair o eleitorado. No entanto, as investigações contra o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e, principalmente, as denúncias envolvendo as negociações para a compra da vacina Covaxin, contra o novo coronavírus, podem respingar nos planos dele de recondução ao Planalto. Na última sexta-feira, um fato novo levado à CPI da Covid provocou o maior desgaste do governo até agora: o chefe do Executivo teria sido avisado das suspeitas de irregularidades no contrato do imunizante indiano, dito que parecia ser “rolo” do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), mas não teria tomado nenhuma atitude.

A informação foi levada à comissão pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) e pelo irmão dele, Luis Ricardo Miranda, chefe de importação do Departamento de Logística do Ministério da Saúde. O servidor também relatou ao colegiado “pressões anormais” por parte dos seus superiores para agilizar a importação da Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, representado no Brasil pela empresa Precisa Medicamentos, que é alvo da CPI. O ministério assinou contrato de R$ 1,6 bilhão com a Precisa, em 25 de fevereiro, para a compra de 20 milhões de doses do imunizante. O deputado informou ter relatado a Bolsonaro as suspeitas de corrupção na negociação, identificadas por seu irmão, e as pressões que ele vinha sofrendo.

Já havia desconfiança na comissão sobre a atuação incisiva do governo em prol da Covaxin, inclusive com a participação de Bolsonaro, enquanto outros imunizantes com estudos mais adiantados, como o da Pfizer, eram deixados de lado.

Enquanto isso, Bolsonaro faz o que costuma fazer quando se vê envolto em informações negativas ao governo: ataca a imprensa e o adversário mais forte para as eleições de 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — apelidado por ele de “ladrão de nove dedos” — e brada que desde o começo de sua gestão não houve casos de corrupção.

Na sexta-feira, horas antes do depoimento dos irmãos Miranda na CPI, Bolsonaro negou superfaturamento da Covaxin e disse ser “incorruptível”. “O contrato, pelo que me consta, não há nada de errado nele. Não há superfaturamento. É mentira. Eu vou ouvir Queiroga (Marcelo Queiroga, ministro da Saúde) para saber da opinião dele”, frisou, em entrevista coletiva. “Não foi gasto um centavo com a Covaxin, não chegou uma ampola aqui. Vocês querem me julgar por corrupção? Vão se dar mal. Eu sou incorruptível.”

O presidente e governistas têm se amparado no discurso de que “nada foi pago”, apesar de o contrato ter sido assinado e havido uma tentativa da empresa de receber US$ 45 milhões antecipados — investida travada por Luis Ricardo Miranda.

Numa tentativa de contragolpe, o governo tem adotado, também, a estratégia de desacreditar oponentes. Bolsonaro disse que pedirá à Polícia Federal a abertura de investigação contra Luis Miranda. “Olha a vida pregressa desse deputado. É lógico que a PF vai abrir inquérito”, enfatizou. Afirmou, ainda, que o parlamentar ostenta um “prontuário” policial extenso, numa alusão aos processos judiciais que pesam sobre o político do DEM.

O governo também enfrenta suspeitas de corrupção na gestão do agora ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Ele pediu demissão na quarta-feira depois de intenso desgaste provocado pelas operações Handroanthus e Akuanduba, que apura suspeita de envolvimento dele num esquema envolvendo a exportação ilegal de madeira.

Na avaliação do cientista político Rodrigo Prando, apesar de os indícios serem graves, é necessário aguardar o desdobramento das investigações. Ele acredita, no entanto, que os casos têm potencial de arranhar o discurso de Bolsonaro. “A saída do Salles é um sinal fortíssimo de que tem coisa para resolver ainda e acaba atrapalhando um discurso que sempre quis se colocar diferente de todos os demais. Essa narrativa de que ‘somos diferentes’ e não houve corrupção também foi dos petistas, até que o mensalão apareceu e depois o petrolão, várias questões relacionadas ao PT. Nesse sentido, a retórica é a mesma”, enfatizou.

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