Donisete Braga: “Quem não sai do gabinete não consegue nada”

Esta semana eu conversei com o ex-prefeito e ex-deputado Donisete Braga.

Ele nos recebeu em pleno feriado estadual para a sua primeira entrevista após as eleições de 2020 e falou sobre sua história, seu trabalho e seus projetos.

Daniel: Para o Donisete, quem é o Donisete?

Donisete: É um homem que tem uma história, mas é, antes de tudo um homem batalhador. Tudo o que conquistei na minha vida veio do meu esforço pessoal e contei sempre com o apoio da minha família. Não entrei na política por apadrinhamento, mas por convicção.

Daniel: Como foi isto?

Donisete: Eu comecei muito cedo. Eu nasci, no interior, na roça. A criança que nasce na roça começa trabalhar cedo. Nós não tínhamos creche, então eu puxei enxada, separei bezerro e tudo o que uma criança era capaz de fazer naquele lugar. Em 1976 houve uma grande geada na roça onde meus pais eram empregados e nós perdemos tudo. Foi aí que um tio (a quem eu devo muito) propôs que nossa família se mudasse para uma casa de dois cômodos que ele tinha aqui no Parque das Américas em Mauá.

Devo dizer que este tio também é o grande responsável por eu ter chegado aonde eu cheguei. Repito: devo muito a ele.

Como os caminhões da região estavam vindo para o Ceagesp comprar mantimentos para a região, onde se perdera tudo, meu pai, inteligentemente, aproveitou um caminhão que estava vindo vazio e o alugou para trazer nossa família.

Lembro-me que eu não queria vir e por isto, no dia da mudança eu fugi de casa. Levei uma surra do meu pai (risos) e, graças a Deus vim com eles.

Viemos eu, meu pai, minha mãe, minhas duas irmãs e meu irmão mais velho que hoje mora no interior (meu irmão caçula Zezinho nasceu aqui no Nardini).
Nós trouxemos um fardo de arroz, um fardo de feijão, umas 10 galinhas caipira e um leitão, porque nós não sabíamos o que a gente ia encontrar aqui.
Meu pai mal sabia escrever o nome e minha mãe era apenas alfabetizada.

Daniel: E como foi ao chegar aqui?
Donisete: Ao chegarmos, minha mãe começou trabalhar de empregada doméstica e, como ela era muito católica, começamos a participar da igreja São Felipe. Logo no primeiro mês meu pai conseguiu emprego na Santa Marina hoje Saint Gobain.
Foi ali que meu pai começou a Militar no sindicalismo, que na época era um sindicalismo muito pelego. Trabalhando nesta empresa meu pai foi demitido por justa causa depois de 22 anos por causa de uma greve que o sindicato havia realizado

Minha mãe, enquanto trabalhava de doméstica, foi fazer enfermagem em São Caetano. Depois de formada,  prestou um concurso público e começou a trabalhar de enfermeira na prefeitura de Mauá onde trabalhou por 30 anos.
Ela trabalhou na UBS Central (que era também o pronto-socorro), depois trabalhou no UBS Flórida que era 24 horas, depois foi trabalhar São João que também era 24 horas,  seguido por trabalhar no Zaíra 2 que também se tornou 24 horas
Depois de 6 meses que estávamos morando na casa do meu tio, em virtude fidelidade e a participação que minha mãe tinha com a igreja, o Padre José nos convidou para sermos zeladores  paróquia São Paulo Apostolo no Zaíra. Ali, eu e meu irmão tínhamos a responsabilidade de limpar a igreja.
Depois eu fui trabalhar de engraxate em frente à padaria Globo onde também vendia sorvete. Estudei no Izilda e com 14 anos consegui meu primeiro emprego: Fui ser empacotador no supermercado Onitsuka.

Com o tempo, fui promovido a repositor e, não me contentando em ficar no mesmo espaço, busquei o crescimento e fui estudar contabilidade. Neste período saí do mercado e fui trabalhar na Cofap de Santo André, ficando lá
por dois anos trabalhando a noite.

Ao concluir o curso de contabilidade, fui trabalhar nas Casas Bahia em São Caetano. Naquela época eles não possuía lojas fora da Grande São Paulo e eu fui trabalhar no setor fiscal, que era responsável por abrir lojas.

Paralelo a isto, eu estava participando de movimentos populares. Meus pais estavam envolvidos com questões políticas e foi assim e conheci o Celso Daniel e o Bruno Daniel e comecei a militar no Partido dos Trabalhadores.


Daniel: E quando você começou a fazer campanha?

Donisete: Em 1986 participei primeira vez de uma campanha política na campanha para Deputado Federal do Osvaldo Aparecido que depois veio se tornar vice do Osvaldo dias na campanha de 1988, quando perderam a eleição para Amauri Fioravante.
Em 1989 apoiamos o Márcio candidato a vereador. Foi uma campanha muito alegre e ele foi o vereador mais votado. O Marcio, depois de duas pessoas não aceitarem seu convite para sua assessoria, me chamou e eu aceitei.

Então, mesmo contra a vontade meus superiores nas Casas Bahia, pedi demissão e vim para câmara de Mauá.
Esse foi o início na minha trajetória política.

Daniel: Então você é mais um típico Mauaense, ou seja, alguém que foi acolhido por esta cidade e aqui criou suas raízes e se desenvolveu.

Donisete: Sim. Em 1992 o Márcio saiu candidato e perdeu para o Grecco. Com isto ele foi trabalhar com o Fillipi em Diadema e eu fui trabalhar com o Rui Falcão na ALESP de 93 a 96
Em 96 disputei a minha primeira eleição para vereador e fui eleito.
Em 97 assumi o mandato sendo o Osvaldo Dias prefeito e o Márcio seu vice.
Em 98 o nosso grupo decidiu me lançar como candidato a deputado estadual, já que o Márcio havia desistido da candidatura. Eu estava no segundo ano meu primeiro mandato e o Rubinelli (que também era vereador) também saiu candidato.
Tivemos uma briga por isso, mas como era a primeira vez que o PT governava a cidade, apesar da campanha acirrada, me tornei primeiro suplente faltando apenas 500 votos para que eu fosse eleito diretamente e o Rubinelli ficou na terceira suplência
No ano 2000, o Osvaldo saiu candidato à reeleição e eu busquei minha reeleição como vereador e fui reeleito bem como o Rubinelli.
Naquele ano em Diadema, a prefeitura foi disputada entre José Augusto (PPS) e o Fillipi (PT). Como ambos haviam sido eleitos pela coligação que englobava o PT, qualquer deles que fosse eleito, abriria vaga para mim que era o 1º suplente a deputado estadual. Foi assim que, apesar de reeleito vereador, renunciei ao mandato e fui assumir uma cadeira em definitivo na Assembleia Legislativa. Abriu-se também vaga para o Rubinelli na Alesp e para o Élcio no congresso, mas ambos erraram em declinar, pois como suplentes eles acabariam sendo titulares, uma vez que a Marta chamou alguns titulares para o seu secretariado na Capital.

Daniel: E você foi reeleito.

Donisete: Sim. Em 2002 fui o mais votado do ABC com 125 mil votos, e fui reconduzido ao cargo em 2006 e em 2010.

Daniel: E como você se tornou prefeito?
Donisete: Em 2012 o meu amigo Luiz Marinho me chamou para ser candidato a prefeito porque o Osvaldo estava muito desgastado na cidade. A disputa interna no partido foi difícil, mas eu me credenciei e saí candidato. Tivemos uma disputa acirrada, mas eu ganhei da Vanessa Damo no segundo Turno.

Na época eu fiz um acordo com o Atila, que incluía ter o Jacó como candidato a vice, mas ele me traiu e saiu candidato a deputado no meio do meu mandato.

Depois eu perdi a eleição para ele e todos viram no que deu.


Daniel: Quais os destaques do período em que você foi deputado?
Donisete: Participei ativamente da discussão e aprovação da Lei Específica da Billings e da Lei Específica da Represa do Guarapiranga. Também havia uma lei do período do governador Paulo Egídio que impedia que o Polo Petroquímico pudesse de forma gradativa aumentar a produção da Nafta. Isto seria um impedimento para que o Polo Petroquímico continuasse na cidade trazendo riquezas e criando empregos. 60% do orçamento do município é do polo e eu não podia deixar ele ir embora daqui. Então chamei para mim a responsabilidade, encampei o debate com os colegas da Alesp e alteramos esta lei, permitindo que o Polo aumentasse a produção de nafta e consequentemente de plástico.
Outra lei importante foi uma sugestão de uma aluna da Fundação ABC que me foi dado durante um debate. Ela me disse que achava complicado o aluno pagar caro por um curso superior e depois, se quisesse ter seu diploma tinha que pagar para a instituição fazer o certificado. Concordei com ela e fui à luta. Hoje, no estado de São Paulo, ninguém mais precisa pagar fazer o diploma universitário
Daniel: Aliás, essa é uma característica sua: Escutar a população. Eu me lembro que você governava, como prefeito, baseando suas decisões no orçamento participativo.

Donisete: Exatamente. Além disto, como deputado, trouxe emendas para região independentemente de cor partidária pois possuía uma relação muito boa com os prefeitos da nossa região.

Daniel: Você disse que você saiu candidato a prefeito a pedido do Luís Marinho, e como foi ser prefeito?

Donisete: Na época tive um bom relacionamento com os prefeitos da nossa região, graças a liderança do Marinho. O Consórcio regional do ABC funcionava com uma boa sintonia e com isto nós conseguimos trazer recursos para nossa cidade e investidores. O Marinho, que estava em seu segundo mandato como prefeito, depois de ter sido ministro do Trabalho e da Previdência, soube liderar bem a região.

Daniel: Na sua época como prefeito, como era a briga entre famílias tradicionais contra o PT?

Donisete: Olha, Daniel, essa discussão aqui sempre ouvi. Mas eu não entendo como sendo famílias políticas porque nas famílias existem muitas pessoas que não fazem política. São grupos liderados por algumas pessoas com o grupo do Leonel, o grupo do Grecco o grupo de Jacomussi assim com o tem grupo do PT e muitas vezes esses grupos se unem e outras vezes se separam.
Vou te dar um exemplo: enquanto eu era prefeito, o Grecco e o Leonel foram mais no meu gabinete do que o Osvaldo Dias, mesmo porque eu não estabeleci nenhum processo de perseguição a qualquer pessoa. Quando fui eleito não fui eleito para ser prefeito do partido, mas para ser prefeito de todos. para governar bem a cidade
Eu acho que este foi o grande erro do Átila. Ele governava para ele sozinho. Ele parou ouvir os amigos e até ao seu próprio pai. Ele perdeu uma série de projetos que nós havíamos conquistado para a cidade por não saber ouvir. E no fim deu no que deu: prisões, impeachment e a cidade a ir para as páginas policiais.

Daniel: E isto trouxe consequências…
Donisete: Infelizmente. Isto inibiu muitos investimentos no nosso município. Como consequência caiu a geração de empregos. Ele lamentavelmente manchou a imagem da cidade. Eu fico pensando como “um filho de Mauá” faz isso com a cidade?

Daniel: Aí você mudou de partido para buscar uma vaga a Deputado Federal

Donisete: Sim. O PROS era um partido muito pequeno ainda na época. Tinha uma estrutura muito difícil, mas foi uma contribuição muito importante para o debate
Mas eu não me arrependo também não me arrependo de ter saído PT. São decisões que são tomadas a cada instante da vida. A pior decisão que um homem pode tomar, é a de não decidir.

Daniel: O PT ganhou as eleições municipais do ano passado em Mauá. Foi mais pelo PT ou foi mais um movimento anti Átila?
Donisete: Certamente anti Átila. O Marcelo se tornou perfeito por 600 votos. Foram os 600 votos que ele teve a mais que o João Veríssimo que o levaram a ser prefeito. Todos sabíamos que quem fosse para o segundo turno contra o Átila sairia vitorioso e por 600 votos foi o Marcelo.
Todas as candidaturas colaboraram para tirar votos do Átila porque você sabe que quem está com a máquina na mão um poder maior
Mas a população levou muito em consideração a malversação do dinheiro público, o desvio de verbas, a questão da merenda, as prisões, o impeachment e outras atrocidades. Isso tudo fez com que quem fosse para o segundo turno ganharia a eleição e aconteceu!

Daniel: E como está sua relação com o PT
Donisete: Eu não tenho relações com partidos, mas com pessoas. Sou muito amigo do Luiz Marinho, do Carlos Grana, assim como tenho boas relações com muitas pessoas de muitos partidos. Eu tive um crescimento grande nesta questão de brigas partidárias e não vejo este ou aquele partido como o mais perfeito. Acho que é um momento de trabalharmos pelo Brasil, onde a gente possa ter mais condições de vida e torcemos para que, o mais cedo possível. todo o Brasil esteja vacinado
Está sendo um ano muito difícil. Perdi amigos e a pandemia acabou contribuindo demais com a discussão da Saúde e desemprego. Todos nós sofremos muito com isso.

Daniel: Teremos seu nome nas urnas em 2022?

Donisete. Esta é a primeira entrevista que dou após a eleição de 2020. No momento estou vivendo um ano sabático. Estou apenas analisando uns processos políticos, mas nunca vou deixar participar da política. Existem várias formas de participar da política sendo candidato ou não. Está no meu ser, está no meu sangue. Agora se vou ser candidato ou não, isto é relativo. Mas eu não quero estar fora da discussão política na região, no estado e no país.

A minha mãe me ensinou que a política está em todo lugar e que não tem como não fazer política ainda que seja pequenas coisas. Só não faz política quem está morto. E como eu estou vivo, continuo fazendo política

Daniel: Como você avalia o atual governo municipal
Donisete: Não é possível avaliar. Eu escuto as notícias. Fico feliz, por exemplo, quando vejo o Clóvis Volpi conseguir recursos para Ribeirão Pires. Conseguiu essa semana 16 milhões para o hospital. Isto é importante e vai amenizar a situação também do nosso município. Fico feliz quando vejo o Claudinho da Geladeira conquistar uma nova estação Rio Grande da Serra e acabar com o problema que a atual estação traz ao munícipe, ou quando ele consegue um Poupatempo para sua cidade.
Eu vejo que esses dois prefeitos têm tido iniciativa muito interessante de buscar recursos no governo do estado e no governo federal. Um prefeito que não sai do gabinete, não consegue recursos, não consegue nada. Eu fui prefeito e o que consegui para a cidade foi batalhando. Tem que bater na porta do Governo do Estado, tem que bater na porta do Governo Federal. Se você não pedir, eles não te dão porque eles entendem que você não está precisando.
Um prefeito que não sai do gabinete não vai conseguir absolutamente nada. O Claudinho e o Clóvis estão saindo do gabinete, estão saindo bastante, e o resultado tem sido positivo nesses 5 meses.

Daniel: Nesse caso o diálogo com os governos estaduais e Federal também passa por deputados. Você vê a possibilidade de termos candidatos da região eleitos no ano que vem?
Donisete: O ABC sempre teve e tem que ter deputados, afinal é uma região com 2 milhões de eleitores e dois milhões e meio de habitantes.
Torço para que a gente tenha bastante e bons candidatos e que tenhamos uma grande bancada. O ABC já teve 4 federais 8 estaduais e hoje só temos dois estaduais e dois federais. Precisa ter mais do que isso. Mauá, que sempre teve Estadual, agora está sem, apesar de ter 350 mil eleitores. A cidade merece termos representante na Assembleia e isso é um desafio. Se a região se unir é possível elegermos uma grande bancada

Daniel: Qual a sua opinião sobre voto distrital?
Donisete: Se você, Daniel, pegar a nossa região, qualquer deputado acaba sendo eleito por ser forte na região. Eu mesmo, quando fui eleito, Mauá contribuiu muito para isso. Então não deixa de ser regional. Nossa região não tem uma candidatura que extrapola os limites regionais. Certamente nossa região terá fortes candidatos

Daniel: Obrigado Donisete!

Donisete: Queria agradecer pela oportunidade e dizer que esta é a primeira entrevista após as eleições. Agradeço pelo seu carinho em me convidar. A gente tem uma história de vida que eu nunca vou esquecer. Minha história, minha trajetória, passa por muitas pessoas que me ajudaram muito.

Que a gente possa no ano que vem eleger um presidente da república competente, que crie um cenário de pacificar o país, porque o nosso país continua dividido e isso é muito ruim
Não podemos ter um presidente da república que usa palavras de baixo calão. Fazer isso numa Live então é pior ainda. Se o governante tem briga com alguém da CPI ou discordância, é preciso respeitar. Ele é o líder de uma nação. O país não suporta mais a figura deste cidadão que infelizmente envergonha o nosso país. Que o povo possa fazer uma boa escolha no ano que vem.
Isso também vale para o governo do estado: é fundamental que tenhamos um governador que tenha um olhar melhor parar o ABC e que reconheça o potencial e a pujança econômica da nossa região

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